DECORAÇÃO CONSTRUTIVA


DECORAÇÃO CONSTRUTIVA

Você já ouviu falar em Decoração Construtiva?

Eu costumo dizer que é o oposto da Decoração de Loja.


Tela Maurício Aurvalle

Quando iniciei meus estudos, nunca pensei que algum dia trabalharia com decoração, como eu era muito novo, não entendia o que a profissão realmente era capaz de fazer.

Com o tempo, com a prática, com os desafios dos clientes, com os colegas de profissão e com os ensinamentos do meu grande professor, o arquiteto Mario Englert, pude entender a profissão e construir a minha visão sobre como trabalha-la.

Há trabalhos que não demandam complexidade...são objetivos e práticos. Não foram feitos para contribuirmos com nossa criatividade. E os motivos são os mais diversos, vão de baixa intenção de investimento, falta de interesse, medo de fazer algo diferente ou simplesmente por gostar de simplicidade. Outros tantos motivos poderiam ser agregados nesse contexto e todos estariam corretos, ao meu ver, pois arquitetura e decoração é feita para quem a usa e não para quem a cria.

Alguém poderia dizer – “mas é o dever do profissional utilizar a sua criatividade e o seu trabalho para mostrar novas possibilidades ao cliente” – Sim, é. Mas também é muito fácil de perceber quando isto não vai obter nenhum sucesso. Apenas – “Faça um bom trabalho e é isso”. E como eu já disse – “Tudo certo” – afinal essa também é a nossa profissão, fazer o simples bem feito.

Mas também, existem os trabalhos complexos, aqueles cujo o resultado precisa superar as expectativas, independentemente do valor que a pessoa possa investir. São aqueles trabalhos que o cliente quer ser impactado pelo resultado. Bom, são nestes casos que a Decoração Construtiva começa a acontecer.

Como fazer?

Existe uma condição básica para o processo funcionar. É preciso que o cliente esteja disposto a se envolver e a se analisar, dedicar tempo pensando. E saber o que se gosta, suas preferências e desejos, poucas pessoas sabem. Todos sabem o que fazem em suas casas...seus rituais para acordar, preparar comida, trabalhar e realizar as tarefas da casa, mas não se questionam se o que fazem, e como fazem, é o melhor jeito ou se realmente é do jeito que gostariam que fosse. E se para as questões funcionais isto já é um total mistério à grande maioria, imagina quando chegamos no complexo campo da decoração e “estética”?

Um grande exemplo disto é quanto a palavra Ousadia entra no processo de decoração. “Todos” querem ousadia e o “efeito cool” em seus resultados, mas poucos possuem o temperamento para conviver e para viver deste jeito. Normalmente, as pessoas verdadeiramente ousadas e descoladas são vistas como excêntricas. As que tentam ser, mas não são, ficam evidentes...alguns rotulariam de “posers”...os mais antigos falariam que ”esses pintam de bacana”...mas sinceramente, eu admiro as pessoas que acreditam em algo diferente e buscam tornar isto uma realidade. Afinal, a diversidade das excentricidades nos proporcionam um contexto cultural e humano muito mais rico.

Errado? Nada é errado se te faz feliz. Porque seria errado ser feliz? Dane-se o que podem pensar. Mas pensar assim é difícil, pois precisamos ter um conhecimento e um amor próprio muito bem resolvido...ao ponto de não nos importarmos.

Mas a decoração construtiva não se trata de ousadia ou qualquer rotulação comportamental, ela trata exclusivamente de tornar o lugar em algo familiar (de conhecido), em algo acolhedor, em algo usável, em algo humano, em algo com a personalidade de alguém ou de alguns. Enfim, é o lugar que você entra e sabe a quem pertence. Te proporciona uma experiência de adentrar na intimidade de alguém, percebendo suas preferências, suas leituras, seus entes queridos, suas cores preferidas, sua vibração e tantas outras percepções que nos fazem reconhecer aqueles que habitam e ainda assim nos sentirmos bem e acolhidos.

É uma decoração onde “podemos mexer nas coisas” ou sentar no sofá e se abraçar numa almofada. Não há lugar para cada coisa, mas cada coisa sempre acha o seu novo lugar. É uma decoração para ser usada e capaz de reunir todas as riquezas familiares e das amizades sem promover conflitos com a “decoração”. Tudo pode, desde que te faça feliz...Seja você ousado ou não, clássico ou contemporâneo, não importa o estilo mas sim o que isto irá te proporcionar.

Se há regras para realizar este tipo de decoração?

Sim, existem “algumas regras”:

  1. Aprenda a reconhecer o que você gosta e o que você quer sentir e transmitir ou entrar na sua casa (ou qualquer outro lugar).

  2. Não faça combinações por cores ou estampas. Busque a harmonia nas diferenças.

  3. Tenha aquilo que tenha valor para você...sentimental, familiar, amoroso ou simplesmente porque você acha incrível!!

  4. Esqueça o que é tendência, pois tudo que é moda passa. E como toda moda que passa, também volta, escolha o que você ama.

  5. Dane-se o que os outros vão pensar.

  6. Toda a cor que se pinta, pode ser facilmente trocada. Por isso, ouse no seu desejo.

Eu poderia encher folhas e folhas de regras, mas o principal é o que o processo proporciona às pessoas. Por meio de diversos questionamentos que o ato de Decorar e Projetar realiza, faz com que cada um dialogue consigo mesmo e inicie um processo de auto conhecimento e é isso que constrói resultados impactantes.

O ato de Projetar e Decorar ajuda o cliente a reconhecer o que quer e o que não quer e fornece ferramentas e argumentos para que ele passe a tomar as suas próprias decisões e, a partir deste ponto, a pessoa começa a andar sozinha.

Se este é um processo fácil? Não, não é. Ele é demorado e consome energia, pois obriga a nos olharmos no espelho e também para dentro. Mas sabe como é possível avaliar isto? Basta prestarmos atenção na forma como nos vestimos. Somos o que conseguimos ser, podemos até desejar e admirar outras formas, mas somos o que conseguimos ser. E para mudar, é preciso que a mudança faça sentido para nós, que nos deixemos mudar e passarmos a ser feliz com a mudança.

Maurício Aurvalle.

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